quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sopros



Deitou acordada. Não há espaço capaz de aquietar o corpo. Calor e ventilador circulam brincando de esquenta-esfria. Alguns acanhados fios de cabelo voam até o nariz. Ela põe a mão na testa e impede que deslizem. Vira-se para o lado. O médico havia dito que gente que tem sopro no coração deve dormir sempre à direita. A sua tia asmática também tem. Quando soube dessa “cardiopatia congênita” tinha apenas dez anos e nem sabia o que significava a palavra cardiopatia e muito menos congênita. Pensou logo num tumor fatal. Foi a mãe que disse - que é isso menina, tua tia Joana tem esse sopro e está inteirinha. Nunca se sabe o que a mãe é capaz de dizer para ver uma filha apaziguada. Restou sempre essa pulga atrás da orelha.
No outro dia na escola, ficava olhando para cada uma das meninas imaginando se algumas delas sofriam do mesmo mal. Apenas com uma freira pálida, e que vivia acometida de soluços incontroláveis, imaginou compartilhar a doença. A primeira vez que procurou um psicanalista, anos depois, soltou a pérola - é que tenho um sopro. Penso que o homem riu na sua particular tela em branco. Por que pensar nisso uma hora dessas da madrugada? O melhor para o coração nem sempre tem o mesmo efeito sobre braços e pernas. Nada bom dormir do lado direito. Para que serve um cotovelo? Molha os lábios com a língua. Ouviu dizer que ventilador ressaca até a alma. Um joelho magrelo, ossudo espeta o outro. Melhor um lençol entre as coxas. Ah não desejo essa hora não. Quantas pernas cabem no entranhado desassossego? Favorece, sempre, beber água. Assim as sedes se apaziguam.
Um fascínio andar no escuro sob a ponta dos pés. Copo na mão, espreita a janela na amplitude de visão do décimo primeiro andar. O edifício é Mariana, mas falta uma letra e fica Mar ana. Que importa? São três horas da manhã. Um homem empurra a bicicleta, vagarosamente, na rua deserta. Terá um amor? Não parece tão só. O meu, essa falta insone. As horas acorrentadas ao relógio movem-se ao contrário; precisodormir-precisodormir-precisodormir. Fazer o que? Apagar os clarões que sopram. A memória encoberta por sete caixas, sete juramentos, sete lágrimas retidas. É verde o olhar do homem que mexe a música com os dedos. Fagulhas da lucidez que devora.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Locomotiva



Apita o trem:
a hora do dor.
É deserto na janela.

O homem da casa
conduz o rumor dos trilhos
indiferente à paisagem.

O homem da casa traz mão vazias
infinitos dedos
de ninar, de morder, de esquecer.

Os vagões da aflição do prazer sem ser
calam gemidos ocos,
Cabeça para trás, cabelos por entre as mãos,
o dueto segue sem destino.

Um homem muito grande,
pode mudar a direção dos ventos.

Vai- vem, vai- vem, pedaço por pedaço.
boca interrompida por mãos,
grita vedada a mentira que revela.
Lágrimas desacertadas,
inundam fábulas interrompidas.

O homem- máquina transpõe as horas.

Passado come inteiro o dia seguinte.
Família invisível na sala.
O mais tarde não vive,
e ninguém vê.
A menina apoucada,
engole palavras.

O que ele fala:
Não diga nada, não conte.
Eu te dou um chocolate Garoto, a última Barbie
te cubro o lençol na hora do adormecer.

(O apito se afasta, a mão guarda a calça,
perene aroma da culpa impregna a sala)

O que ela cala:
Não viajo. Permaneço.
Deito nos trilhos poemas em disparada. E permaneço.
Sob carris de morte e vida.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Epiderme - vídeo poema

Estamos concorrendo ao 5˚ Prêmio Internacional Poesia ao Vídeo no Fliporto Pernambuco.

Aprecie e, se gostar, compartilhe com os amigos:

Epiderme - http://bit.ly/oW1q9i

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Monalisamente




ENCONTRADA
Denuncia o cartaz
Sem recompensa.

Ninguém vê

Embora custe caro
O crime de seguir a risca
Uma vida emoldurada em quadrado

Desconfie

Não há afoiteza de dança, nem embriaguês
Na mulher prendida
Entre laços e fitas.

Siga a sombra

O canto da boca,
Monalisamente,
Risca o caminho da tentação

Use a língua

A natureza silenciosa
Ao fundo
Revela nitidez

Embaralham-se pistas

Lugar algum refugia
O sulco
Do soturno alvoroço.






quinta-feira, 7 de julho de 2011

A Camélia, a morte e a andorinha.


Um passarinho manco compõe a cena da despedida. Uma pata sim, outra não e duas asas. Houve quem dissesse, que pena. Doente somos nós que temos duas pernas e não voamos. Impaciência com quem só olha pro’ chão. Eu sei que ela esbravejaria e falaria beleza. Exaltaria o cântico livre da andorinha no jardim de muros. Ela, a alegre senhora do ‘107’. (Nunca gostei de números ímpares). Hospital é um lugar fora do mundo.

Camélia nunca teve papas na língua. Em raras tréguas antes da morte, quando o relógio marcava 17 horas, ela descia e devorava três cigarros até a última ponta. Era quando o pássaro assentava ao lado dela. Ele sem uma perna, ela sem suas usuais asas. Foi diante dessa cena de rara beleza que uma enfermeira asseverou: saiba a senhora que está muito doente e não deveria estar aqui. Ela de pronto respondeu – eu deveria estar onde quero, onde todos deveriam estar. Buft! E a moça de branco recolheu-se. Era sua última vez.

Uma mulher diante da morte, um passarinho e a gaguez de quem não consegue tocar a potência da vida. Quem já morreu sabe que o maior sentimento nunca se conta. Camélia não fala mais. Não mais visita o lá fora. No ‘107’ houve até cânticos de despedida. Januária despontou na janela, e Carolina com seus olhos fundos guardou a dor. Compomos uma intensa sinfonia. Calada a morte permanecia. O olhar cerrado de Camélia cravado em nossas retinas. Imersos na direção do nada. Eu vi. A morte não é verbo. Respira-se vida até que ela se cale. Sem possibilidade de composição de nenhum predicado. Mesmo que em algum momento todos ainda cantem. É muda a partida.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O Barão e a Formosa



“Assembléias, multidões!...
Não te iludas a caminho...
Na alcova do coração,
Cada um vive sozinho
.”
(Juvenal Galeno, Trovas do Além)


Cuspiu e praguejou. Feio é se fazer de morto! A calçada fervilha no final de tarde. E ele fica a apreciar o vai e vem da gente conformada com a sorte. Sabe de que modo anda esse tipo criatura? Como se a sina fosse aquela - trabalhar, comer, procriar e mostrar migalhas de coisas que o dinheiro compra. A vizinha do lado passa por ele e faz cara de espanto. Logo ela que daria até a vida para ganhar um cargo na municipalidade e poder mandar em quem quer que fosse. Vendida! Dessa vez ele grita alto sem o contumaz temor de ser tido como louco. Esse é o privilégio dos quase centenários, poder xingar, esbravejar e escarrar verdades, impunemente. Seu Juvenal nem se aborrece. A cadeira na calçada da Formosa deixa entrever que não há mais lugar.

A rua próxima aos bondes, dos passeios elegantes e das prosas demoradas é agora atravessada pelo alarido das buzinas. Progresso. Seu Juvenal pensou – existe sempre um nome bonito para as coisas que tiram o sossego. Com o passar dos anos, cada vizinho foi se recolhendo para os cômodos fechados. Cadê as moças de saias rodadas, dos corpetes generosos, de carmim nas faces? Por onde andam os rapazes que, na calçada do outro lado, exibiam fatiotas engomadas, coletes e lapelas ornamentadas de flores?

A velocidade marca o ato derradeiro do recolhimento. São horas que correm por dentro do cálculo racional do relógio. Seu Juvenal permanece. Cada final de tarde repete o ato de resistência, puxa o assento já roto e segue o movimento. A rua Formosa ganha nome de diplomata e fica deserta de cadeiras. A vista esbarra nos primeiros arranha-céus. Faz silêncio a Lira Íntima dos últimos românticos. Todos passam e ninguém se reconhece. Na Barão, gente é tanta que se esconde. Foi-se o tempo das trovas e das quadras anônimas. Moreninhas passam indiferentes ao apelo – não derramas fogo em minh’ alma gelada. O romantismo se recolhe com os lampiões de gás. Fica cega a cidade e o poeta.



(Uma homenagem a Juvenal Galeno poeta cearense do século XIX pertence à segunda geração do Romantismo. É comumente citado como "o pioneiro do folclore no Nordeste". A poesia de Juvenal extrapola o lirismo de caráter pessoal, para cunhar uma dicção popular, de sabor interiorano, em que retrata o Brasil dos pequenos e dos simples)

quarta-feira, 2 de março de 2011

Poema em correnteza



Imagem- Kandinsky



Chega. Pousa tua mão na minha mão. Tua ausência é nua. Não aprendi a me fazer de louca. Tudo que cometo é pouco. Jogo pedras no oco. Teu amor deita comigo e desperto em vão. Tem urgência o grito que acorda com fome. Vem. Você é cego, criatura? Alicia e se ausenta. Vai como quem fica. Ancora porto inseguro. Zona de conforto é propaganda de avião, de navio, de trem. Eu viajo em alvoroço. Reparou que me descabelo por dentro? Faço caretas, uivo, babo. Calada! Quem disse isso? Quem? Cuidado. Eu enxergo por detrás da máscara. Senta. Trapaça esse modo sonso de me querer correndo. Tenho aclives e declives. Você, nem asas tem. Qualquer derrapagem cai dentro. E, em chamas, finge que foi acidente meu bem.