segunda-feira, 22 de abril de 2019

Mania de Explicação?




Em 2006, uma amiga querida, Camila Holanda, me presenteou um livro de Adriana Falcão chamado Mania de Explicação. Logo na primeira página a autora diz: “dedicatória é quando todo o amor do mundo resolve se exibir numa frase - esse livro é para Isabel e sua mania de transformar resposta em poesia”. Em seguida, a amiga anotou “para Glória, pessoa querida que tem (aponta uma seta para o título) Mania de Explicação”.   Achei isso e todo o livro de grande beleza. Porém, aquele título, aquela dedicatória, acabou me provocando perguntas de desassossego.   

Senti-me habitualmente interpelada por identificar, ou identificarem, em meus escritos acenos de uma linguagem literária e assim, por vezes, percorrer vias não contumazes à lógica científica. De outro modo,  gostava nas horas vagas de escrever contos,  poemas e crônicas e retomava o desconforto por me sentir assolada pela tal mania de explicação. Cheguei a pensar que esse pêndulo experimental, costumeiro, entre criar um texto mais livre e outro mais atento a normas e rituais do mundo intelectual me arrastaria para um tipo de escrita sempre lacunar, ponte suspensa entre planos.

Há uma página do referido livro que diz “Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa”.  Seria isso? De onde vem essa impressão de estar em constante deslocamento, de um tipo de nomadismo interno, mesmo em condição de suposta fixidez?
  
Recordo a primeira vez em que consultei um astrólogo e de sua reação diante do meu mapa. A frase inicial foi: “gêmeos ascendente gêmeos, difícil ser você. O mundo anda de bicicleta e você de moto”. E eu quase sempre me dizia, antes mesmo de escutar os astros: preciso correr atrás de mim e me alcançar.Intensidade, vontade de movimento, ou como o povo do interior do Ceará costuma dizer – essa criatura tem um firvião.  Esse entre lugares talvez seja o meu, o seu? O ponto onde o eu não se decide.








quarta-feira, 27 de março de 2019

A visita do morcego



(Imagem: Gustav Klimt)

Ontem, estava eu em um raro momento de felicitância, como diz minha prima, assistindo o seriado Coisa mais Linda, quando vejo um bicho voador dar uma rasante, raspando meus olhos. Pensei, claro, é uma barata voadora. E até me mantive calma.  Mas a vida prega peças. O bicho parecia um louco endiabrado, correndo de um lado para o outro e de pronto vi, era um morcego. Minha tese, já desenvolvida com altos estudos de biologia e tratados sobre medos de infância é que morcego é um tipo de rato ousado, que nem precisa se arrastar pelo chão. Voa imponente e, diz a lenda, chupa o sangue dos inocentes. Já viram que é drama né? E ai comecei a gritar por ajuda. Corre Alexandre, peloamordedeus. 

Enquanto o morcego voava de um lado para o outro do quarto, corri para o banheiro. Fiquei lá confinada e trêmula. Pensei, que é isso? O que custa o tempo nos prover de alguns minutos de felicidade ingênua, despretensiosa? A vida lá fora invadiu o meu lugar. Fiquei chateada com algum Deus. Lembrei logo de Clarice e seu rato atravessando o passeio, aquele tipo de caminhada que se faz sem pensar em nada. “Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato”.  Não era. O que queria esse morcego no décimo primeiro andar? Por que razão me dizia ele que não estamos livres do horror que visita o devaneio? 

Tudo estava lindo na TV.  Era bossa nova, um bucólico Rio fim dos anos 50. Nasci bem ali.   Era música, paixão, beijo na boca, mulher dizendo sim à liberdade e eu me escandalizando com o bicho que atravessa a janela. Eu tão meninamente rodeada e só. De demoras, abri a fresta da porta e vi que o morcego se foi.  Será que se assustou? Será que ao errar o caminho perdeu-se do lugar e voltou a atravessar janelas? Sentei, chorei como quem passa por algum acidente, escapa e ri. Na verdade ri muito. Vi, nítido. Persiste o morcego que voa. Sobrevive a mulher que se espanta, que grita , corre e se levanta. Nessa noite adormeci abraçada comigo.   

domingo, 3 de maio de 2015

O avião, o grilo, o galo e você



(pintura de Hélio Rola)

Não há vestígio do teu nome na Linha. Ontem, o galo cantou bem mais que três vezes e ele ignora que você aqui ficou. Os seixos da pequena estrada não mais sabem da tua passagem. As papoulas das cercas vivas já nasceram e morreram sem te mirar por mais de mil vezes. Estranho um amor tão bom não deixar rastros. Entre meus dedos, continua a escoar esse líquido informe que somos nós dois. E ao futuro apetece brincar de esconde-esconde. 

Da ponta do deck, a vista alcança Canindé e lá não há promessa em nosso nome. Se assim fosse, haveria entre braços, pescoço, dedos um ex-voto de coração partido. Redenção fica à beira da estrada e ainda nos falta cometer aquele grande pecado. Lembra? Você me contou a conversa que teve com uma nossa senhora, aquela que te falou para ganhar o mundo. Pode ser essa a matéria do que somos feitos, a distância.

Passa da meia-noite. Ao longe, tuas mãos talvez toquem um instrumento inaudível. Aqui, um grilo brinca de revelar o escuro. Até que te reencontre haverá entre nós um Paraná, o Ceará e um istmo de medo.  Contudo, existe sempre um mas. São eles o néctar do improvável, da arriscada aventura. Mas, tua pele é tão macia e tua boca serena quando soletra meu nome. Mas, ao teu lado minhas mãos despertam em alta temperatura. Mas, meu corpo sempre soube de ti.

Abeira-se a madrugada e a TIM não diz se persistimos. Há linha? O amor é refém das operadoras. Melhor apagar a luz. Já nem é tarde. O grilo, ironicamente,  pousa no criado mudo. O galo perde a noção das horas e ainda canta. Um avião corta o céu, tão só, tão só.  Somos isso meu amor, um motor suspenso até que seja dado o alívio do comando: autorizada a aterrisagem?


Linha da Serra, 2-3 de maio de 2015.