domingo, 2 de agosto de 2009

A imensidão na torre




A paisagem desafia os limites da visão. Uma luz intensa, quase invasiva, derrama-se sob o traçado xadrez de uma fortaleza dos ventos. A mulher se encontra elevada, podendo ver mar e dunas, mangues banhados pelo fluxo e refluxo das marés, verdes confinados entre paredes e vias. O reinado da visibilidade. Sua torre ocupa o topo mais alto do planalto e alcança os quatro pontos cardiais da cidade que vagueia cega. Cada final de tarde, um sabiá, de canto melódico, pousa na torre e enuncia o tempo das asas e do vôo. Ela repete impulsivamente o mesmo movimento – toca o pescoço e tenta afrouxar o que restou das correntes. O lugar, por vezes, ainda é escuro e pesa. Lá fora, a claridade rasga o céu das manhãs. Uma existência trafega sob superfícies, entre abismos e pontes. Ao traspassar túneis, cavernas e lugares confinados Raquel vislumbra o que permanece. O tilintar do aço sendo afiado, o zumbido do frio e da fome e a chave do carcereiro entreabrindo passagens. Poderia ser de outra forma? O corpo guarda e preserva o raro, o sagrado. Mesmo perfurado, amarrado, forçado, amordaçado existe dentro dele um cômodo secreto que abriga o perdão, doses de ungüento e porções de encantamento. O deslizar da língua de Raul, o percorrer suave das gotas de água por entre os seios, sua desmedida ternura provocam na mulher um lastro de dor e paixão. A memória dá vida. O prazer guardado, retido abre passagem e afrouxa as correntes. Ela desperta. Abre a porta. É ele, o mouro temido, o guerreiro incansável e rude, de lábios grossos, mãos ásperas e certeiras que a conduz para além da escuridão. Uma mulher pode temer e esconder por toda uma vida suas agitações, estremecimentos e precipícios. Uma mulher pode se esconder. Daqui de cima Raúl aponta a direção dos ventos. Pequenos vestígios de asas crescem em meio a cicatrizes e marcas de correntes e cordas. Ela enxerga e move-se sob o lastro de luz. É dia. A moira entoa o canto livre do sabiá.

16 comentários:

  1. De bom agouro o Raul...

    Texto redondo!

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  2. Ah Gloria,
    "o mouro, guerreiro incansável e rude, de mãos ásperas e certeiras..."
    tua narrativa induz ao desejo e à paixão.

    bjos
    berê

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  3. Leio o texto e mergulho, quase sufoco. Glória, tuas linhas ao vento me levam longe, será que chamas um tempo passado? Tuas palavras transportam mistérios, estremeço, será que estive lá também? Por que é familiar? No teu caminho único teces uma fala universal. Será que sinto dessa forma porque você abre horizontes, a visão alcança céu, mar, dunas, mangues, lugares altos e vastos, que clamam por asas, voa, voa, é permitido voar, mas na hora da decolagem, o aço, a sombra, as cavernas, a ameaça da queda, o abismo.
    Tantos sentimentos afloraram lendo teu texto. O desafio de ser livre em um mundo de prisões invisíveis, quem será o carcereiro? Como dizer sim ao perdão que liberta? A chave é o amor? Então você me sacode: “Uma mulher pode temer e esconder por toda uma vida suas agitações, estremecimentos e precipícios. Uma mulher pode se esconder”
    Olho para as cicatrizes e ainda sinto dor, entretanto uma luz me banha e ouço novamente você falar comigo, com a firmeza daquele teu olhar único no mundo:
    “Permita-se ser você”.

    Sinto sua falta.
    Um beijo do tamanho de todas as coisas grandes e lindas que estão no teu texto de luz. Te adoro.

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  4. Raul e Raquel...
    Eita Glória, que tu encantas mesmo

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  5. Lindo1 Acompanhei os outros contos e também gostei muito. Parabéns!

    Beijo,
    Carpe Diem!!

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  6. "Uma mulher pode temer e esconder por toda uma vida suas agitações, estremecimentos e precipícios."

    Pode mesmo, Glória!

    Uma mulher pode se esconder a vida inteira, mas bom mesmo é cantar o canto livre do sabiá.

    bjs
    Rossana

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  7. Uma mulher pode temer
    e esconder por toda uma vida
    seus precipícios.
    Adorei isso!

    Beijo,
    doce de lira

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  8. manuel bandeira diz assim no poema que abre libertinagem: "tão brasil", eu, que adoro e sinto estes versos, posso dizer dos teus que adoro e sinto: tão fortaleza-bela! (pra mim, fortaleza-bela, é muito mais que o nome de uma gestão, é um símbolo. quando cheguei aqui, no primeiro mandato da lulu, me encantei com esse "slogan", que muitas vezes, nao dizia nada do que eu sentia, mas em outras, tudos.).

    como praxe, glória, de um lirismo mui pungente. gosto demais, mulher!

    beijo :)

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  9. " ..o canto livre do sabiá.." o canto do amor que liberta.
    Assim como ler seus contos.
    Sinto-me leve. Viajo pelas dunas intensas da paixão entre Raul e Raquel.
    Amor. Grande paradoxo.
    Glória, escritora....
    que sua premonição se confirme...
    mas ainda acredito que o caminho é longo.
    Beijos " iluminados".

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  10. Perigo de narrativa, a gente vai indo indo, será que volta? Mas essa vontade de afundamente é essêncial.
    Beijos, excelente texto!

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  11. Comecei tímida lendo você e fui, fui, fui... até o canto do sabiá!
    Gostei tanto, tem paz, tem leveza, tem beleza...
    O bom da internet é que ela é sem barreiras (isso é bom e ruim), mas nos blogs é bom, pois sem elas pude conhecer aqui, seu lugar.
    Muito prazer, gosto de conhecer novos blogs.
    Beijo e bom fim de semana

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  12. Texto lindo! A gente vai embarcando em cada palavra, invadindo a existência de Raquel e Raul.
    Beijo, Glória!

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  13. Certa vez li, em um encarte de um disco do Vitor Ramil, a citação de um autor argentino do qual não me recordo o nome dizendo que o frio geometriza as coisas. Muito embora a paisagem de Raquel/Raúl não evoque qualquer tempo frio, por algum motivo que me foge a qualquer lógica, foi essa frase que me veio em mente logo após ler seu texto. Se a paisagem desafia a visão, não é porque a paisagem é impossível de ser conquistada. A paisagem é espaço e no espaço, ainda que circunscritos aos limites do nosso corpo, podemos nos mover com razoável destreza. O que acontece com a paisagem, porém, é que justamente por desafiar a visão, a paisagem desafia o olhar e acaba se tornando tempo, o que faz com que saibamos que por mais que queiramos, jamais conseguiremos conhecer todo esse espaço em razão do tempo da nossa carne que desperta logo após a fecundação. Presos nessa carne, seja ela envolta em tantas lembranças que cravam na memória como lascas de ferro mas que por conta da dor nos fazem perceber que realmente vivemos, podemos ter, entretanto, alguns momentos que nos levam muito além de qualquer mar, sombreando um canto abstrato que ouvimos ao longe e que espelha toda ânsia de infinito que sentimos. Esses momentos, ainda que por vezes nominados como "epifanias da paixão" ou qualquer intelectualismo idiota do gênero, ultrapassam qualquer palavra e fazem com que o espaço que nos rodeia se torne nosso próprio espaço: se torne nosso próprio corpo no tempo da carne. E isso é gozo de vida porque é além da própria vida que se vê o que existe por detrás de cada poro da pele. É esse além que você evoca. Seu texto é eternidade porque é finito, porque é corpo. E não é querer rasgar seda nem nada, mas cada vez mais acho você genial. Um beijo (e perdão pela leve ausência), Eduardo.

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  14. Uau...

    Depois de tudo que ele proporcionou a ela, é natural que ela tenha se sentido tão plena.
    Como você consegue captar estes momentos e transformá-los em palavras? É lindo!


    Beijo.

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Ventanias