quinta-feira, 14 de maio de 2009

Ave rara




Adiantaria dizer, me faltam frases? O bosque fica silenciado ao final de tarde. Logo, logo seremos tomados pelo frenesi do trem da alegria. Da última vez, vi uma criança aos prantos diante do Cascão. Minhas mãos não têm lugar. Eu poderia me tornar catadora de ditos capazes de fazer você se retirar sem sequer olhar para trás. Uma palavra solavanco que acabasse lançando para fora esse sentimento incômodo, esse passageiro sem bilhete. Eu disse adeus em uma sílaba. Você me pediu para soletrar uma sensação sem vestes. Que belo o cenário da despedida! O playground é um convite a olhar para trás. Brincar de gangorra exige pesos em proporção. Fiquei elevada e vi teu corpo assentado rente ao chão. Esvaziado da vontade de partir. Vi também a fita azul dos três pedidos, ainda presa ao pulso. Lembro. Fechei os olhos e firmei cada desejo enquanto você entrelaçava os nós. Não há sinestesia entre nossos signos. Teu ascendente terra fixa a reserva demarcada. Todos os pássaros apreendidos em cativeiro são libertados nessa ampliada área de preservação. De cima da gangorra sigo o bater das asas de uma ave rara. O Urutau se camufla diante dos galhos do frondoso Carvalho. Você sabe que sou capaz de seguir movimentos de vôo e esquecer o risco de te lançar fora dali. A minha fita da sorte há muito se partiu. Eu acho que confundi os pedidos. O primeiro era de viajar de carro por tempo indefinido. Talvez, não fosse. Acabou de passar entre nós o Cebolinha seguido de crianças de todas as cores. O trem parou na estação. A nossa diferença se alinhava desde os primeiros laços. Nenhuma promessa tua fica esquecida. Você é capaz dizer os pedidos na ponta da língua. Bom ver tudo daqui de cima. Deve custar esse ato de sustentar com os pés no chão o peso da partida. O Urutau me fixa o olhar. Ele pode ficar estático por um dia inteiro e não se assustar com qualquer ruído. Somos aves de espécies diversa. Pedir para descer vai agravar a gana de me reter. Minhas pernas doem. Preciso confirmar o rompimento em movimento duplo dos lábios. A-Deus. Houve silêncio de alegria. Pulei em compasso de fuga. O Urutau deslocou-se até o pé de tamarindo. Sem olhar para trás. Eu me banhei de verde. Talvez fosse esse meu último pedido.

23 comentários:

  1. Glória, amei.

    Texto bastante gostoso de ser lido.

    Fiquei impressionado com "Eu disse adeus em uma sílaba".

    Um beijo.

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  2. Faltam frases ao final da tarde

    Nós de desejos laços em diferenças

    Camufladas no pau do carvalho, do

    tamarindo camaleoa voa com o urutau

    no adeus do bosque silenciado

    Depois, Glória,vc me fala de

    Erres com requinte?

    Tá então tá então rs

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  3. A magia de um belo texto ou poema, está no diversos caminhos que eles podem nos levar. Ao ler esse registro, me remeti um pouco à lembranças de minha infância, onde tinha mais contato com a natureza. É interessante como a vida de certa forma nos endurece: termos essa percepção hoje, é algo para pessoas sensíveis....poetas? Abraços.

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  4. Demorou Glória. Passo sempre para ler tuas linhas e estava sentindo falta.

    Nesse texto, só você sabe sobre o que fala, mas mesmo sem ter a compreenção total, a beleza é indiscutível.Todo o resto é irrelevante.

    É a poesia.
    Lindo

    Bjs
    Rossana

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  5. Falando em playground, também sempre sinto uma vontade enorme de entrar quando vejo um. Adoro as balanças e a sensação de chegar pertinho do céu.

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  6. Olá Glória. As frases sempre são escassas apesar de serem tudo que temos. Mas será realmente que são tudo que temos? Antes de pensar, existimos. Antes de andar, engatinhamos. E antes de dizer qualquer coisa para aquela pessoa que amamos, existe um momento em que o beijo, o abraço, a cama e os lençóis desarrumados dizem muito mais do que qualquer palavra. Logo, ainda que a linguagem nos aprisione, é para além da linguagem que somos, pois é no sentir, no pulsar e no pensar que residimos enquanto seres humanos. Por conta de tudo isso, o estranhamento que seu texto me provoca evoca alguma logicidade no meu discurso. Sei que o desejo reside na diferença. Sei que os bosques, apesar de serem silenciosos, trazem consigo ruídos que jamais conseguiremos decifrar e clareiras nas quais apenas veremos o céu azul. Sob esse céu azul, talvez esteja sua gangorra, talvez estejam seus olhos olhando olhos de um negror que não chega a ser negro mas que se torna negro no momento da partida. Que é necessário partir, é. Que é necessário mudar, é. Mas acima de tudo isso, nada disso pode ser esquecido, pois caso caiamos no lugar-comum da efemeridade dos dias atuais, seremos meros patinadores de um gelo que nunca irá ruir mas sempre nos dizem que está prestes a ruir. Portanto, que lembremos. Portanto, que sejamos, que sintamos e que escrevamos, porque somente aí um sentido para a vida, que é uma despedida contínua, poderá ser traçado. Escolher é excluir, mas partir é renovar. E se escolher é excluir, excluir é amar. E se partir é renovar, partir é criar. Por isso meu beijo.

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  7. verde é minmha cor prefequerida :)

    eu amei isso, me trouxe tantas imagens, das boas às más. más como os animimais, bichos homens comendo do lixo (eu não aguento essa dor)... as crinças a brincar (tão raras) na cidade da criança... coisas boas de ver que há irmandade. tu sê livre, mulher! te amo!

    beijo :)

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  8. Um Violoncelo reage ao toque
    Vibram as cordas, solta-se a melodia
    Das mãos escultoras das notas
    Saem afagos de sonora magia

    Uma alma reage aos acordes
    Um coração bate ao compasso
    Uma voz entoa dolentemente
    Um corpo deseja o abraço



    Um feliz fim de semana


    Doce beijo

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  9. Li, sentindo um texto angustiado, partido, sofrido, pensamentos entrecortados, vidas entrelaçadas.

    Talvez seja do adeus, da partida.

    Sua escrita me impressiona pelo muito de analogias, sentimentos, metáforas, a natureza embelezando as palavras, as palavras se apropriando da natureza e tomando forma.

    beijos, ótimo final de semana.

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  10. Último pedido? Não... apenas o primeiro de muitos.

    E adorei ver a natureza livre, os pássaros cantando e a sinestesia tornando tudo mais belo.

    Lindo, lindo.

    Beijo.

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  11. A despedida tornou-se uma festa ( ?). Uma brincadeira no playground com a presença do Cascão, Cebolinha, a " gangorra" e tudo o que lembra a infância .
    O amor é isso. Um jogo. Uma brincadeira. Um ir e vir. Uma vontade de ficar. E outra, de partir. Um parque de diversões cheio de emoções e surpresas.
    " Houve silêncio de alegria"...Quando o sentimento é grande, as palavras são desnecessárias.
    Como sempre, lindo, Glória.
    Escrever de uma maneira tão linda é um talento que Deus lhe deu, poeta.
    Ótimo final de semana !

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  12. A música não seria bela se os silêncios deixassem de ixistir!!! O dia perderia a graça, caso a escuridão da noite fosse eterna e a lua se tornasse uma pseudo estrela. São esses os constrastes e bilhões de outros que modulam em frequências alternadas de minha permanência provisória e efêmera no planeta.

    Poetisa!! Obrigado pelo comentário no Olhar de Carpe Diem para o Século XXI.

    Bom final de semana!!

    Aloha!
    Hod

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  13. Glória, gostei muito dessas linhas ao vento!
    E eu também me escondo, às vezes,
    na concha.
    Voltarei sempre, quero conhecer as suas palavras todas.
    Gosto de ler nas entrelinhas!
    Escrever é uma arte, não importa o que você vai dizer...o jeito de dizer faz a diferença!

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  14. Oi, Glória!

    Você é linda e os seus textos lindos.

    Você, sim, derrama nesta página sentimentos e magia!

    Um beijãooo!

    Pulei de alegria com sua visita! Até!

    Pedro Antônio - A TORRE MÁGICA

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  15. Glória,

    Você é mesmo especial...
    Te ler é uma benção.

    Um beijo carinhoso,

    Solange

    http://eucaliptosnajanela.blogspot.com

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  16. Lindo!
    Uma benção escrever assim.

    "Não há sinestesia entre nossos signos". Porquê? Porque são dois, ou porque é parte de um que se vai?

    O Urutau nocturno, como o tempo, nunca olha para trás.

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  17. "se vestir de verde" nossa!
    Lembrou uma música da minha terra, que diz "sou cunhã sou cunhantã, filha da selva encantada, sou feliz, sou jacanã, pelo verde consagrada e a pluma do uirapuru me convida a ser amada"

    as tuas palavras são tão bem colocadas, perece mesmo um voo sobre (pra mim especialmente) uma floresta...
    saudade :)

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  18. Ai, quanta urgência.
    O trem já vai tocar o apito para seguir o rumo, pois esta com os vagões todos ainda cheios de passageiros, para deixar em outas estações.
    Mas toda a Águia sabe exatamente o momento de alçar vôo, ainda que o apito lhe incomode sua aguçada audição, ele necessita da amplitude para ter atitude, só então ele sai ao encontro do que seu instinto lhe indica.
    O verde,
    Para a dor da transformação.

    Aff, que texto denso em detalhes, gostei, mesmo.
    Gloria querido, uma semana de ampla visão sob a luz do sol pra vc.
    Bjinhos.

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  19. Glória,

    Você sempre aparece no afeto e eu fico de vir aqui e dizer algo. Você produz muito, gosto muito do que você escreve e não gosto de comentar só para fazer volume. Eu leio sempre, embora não diga muito.

    Beijos e obrigada por me ler tantas vezes.

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  20. Quando quiser terminar relação irei para perto da mata para entender do que sou, se será a terra a me prender ou o verde a me convidar ao vôo. Aprendi agora.

    Quando quiser olhar pra trás, vou olhar para playgrounds, talvez lá enxergue o sentido do vai e vem imóvel, afinal há emoção no ato de equilibrar-se, de ir e vir, de fingir voar. Há emoção na junção do que se foi. Aprendi agora.

    Voastes tão bonito que deixastes o rastro da sempre válida e nítida liberdade.

    Como sempre, incrivelmente tateadora do que se sente..linda.

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  21. Adeus nunca é fácil de dizer. Mesmo quando não se sabe até onde ele alcança. Tuas palavras me lembraram que preciso usar mais minhas asas.
    Belos os teus escritos.
    Um beijo, Glória.

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Ventanias