quarta-feira, 6 de maio de 2009

A vela, a água e os corpos


A banheira era insuficiente para que as pernas dele e as dela permanecessem paralelas. Ele fez um arco, suspendeu-a e arrastou-se suavemente para que os corpos se acomodassem. A água morna, o entorno branco aguardando cores quentes e a vela acesa compunha a cena do banho. Jatos gentis de água lançavam-se em correnteza pelo dorso das costas dela. A mulher fechou os olhos e sentiu pequenas gotas deslizarem através da testa, embeberem os cílios até seguir o destino da face. Ontem mesmo, fora elogiada por ter olhos de quem promete viagem sem destino. Uma moça do salão de beleza jurou que se fosse dona de uns parecidos, certeza, já teria feito muito estrago por ai. Falou com essas palavras e todas as letras de malícia que ficaram ali implícitas. Por que não? Uma mulher quase nunca sabe do que pode dar passagem. Leva um intervalo de tempo para que se aqueça a água da banheira. O necessário para que os líquidos se agitem e sigam os fluxos. Recostada, ela evocou imagens de fragmentos do corpo do homem. A boca desenhada e farta, mãos de pegada firme e rasteira e um murmúrio de voz que ecoa em pontos diversos da pele. Ela sempre gostou desse jogo de trazer à lembrança o sujeito presente do desejo. Como o eterno movimento lúdico das piscadelas. As coisas mudam de lugar a depender do olho que se abre. O corpo diante dela remexeu-se. Uma porta de visão se entreabriu e pingos de água de alta temperatura acenderam a lanterna da vontade aguardada da mulher. Do lado oposto, o homem que enxerga iniciava movimentos lentos. Havia atmosfera e promessa de dissolução. Os dedos dele percorreram um começo qualquer das pernas dela e seguiram o caminho do fogo. Há um momento em que o mundo acaba e nada mais há de ser dito. Apenas que Norah Jones cantava com sua voz rouca Sinkin’ Soon e que um cheiro de cabaré, espumante, vela queimada e sexo misturavam-se às espumas. Seus olhos guardam os vestígios arranhados dos estragos. Como fios desenhados do desejo entre suas pernas.

26 comentários:

  1. Glória.
    Belissimo conto. Cheio de sensualida.

    "...pingos de água de alta temperatura acenderam a lanterna da vontade aguardada da mulher".

    Simplesmente fabuloso. Adorei a descrição de todo o enredo desta trama amorosa.
    Beijos
    Victor Gil

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  2. Olá Glória. O caminho do desejo é aquoso. Ao mesmo tempo, entretanto, o caminho do desejo é pedregoso. É aquoso porque desliza e é pedregoso porque quando o desejo é saciado, ele logo entorna nosso gozo e faz com que queiramos mais e mais. Se as pernas dos amantes demoram até se acomodarem na espuma dos corpos, talvez isso esteja para o fato do amor ser anti-natural. E por qual razão o amor é anti-natural? O amor é anti-natural porque pretende que dois corpos ocupem o mesmo espaço ao mesmo tempo, o que, consoante o que aprendemos na física colegial, é algo impossível. Portanto, é diante dessa impossibilidade de plenitude do amor que sentimos o próprio amor e que nos queimamos com as varetas da paixão, o que não quer dizer, contudo, que essa não seja uma das maiores razões de estarmos nesse planeta. Não acredito nos espíritas que falam em reencarnação. Não acredito em um paraíso que esteja para além das nuvens e nem mesmo em um inferno que esteja abaixo dos meus pés. A vida, o paraíso, a reencarnação tida como mudança se dá aqui e apenas aqui, sendo que desta forma é possível que o amor e a paixão, quando mesclados pela química do corpo, sejam o mais próximo que possamos chegar do nirvana dos povos orientais ou até mesmo daquela banda norte-americana. Quanto às suas palavras, como sempre estão bem colocadas, com o efeito por detrás dos enunciados como deve ser a um escritor que receba este título (se é que isso é título). Quanto a mim, continuo a te admirar cada vez mais e a notar que tenho muito, mas muito ainda que escrever até chegar na lapidação perfeita do seu texto. Por conta essas palavras e minha eterna admiração prenhe de afeto nos mais variados sentidos direcionada a você. Um beijo, poeta de sempre.

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  3. Puts!
    Vim por acaso aqui, mas não será totalmente acaso que eu vou voltar.



    Que conto louco, nossa!



    Teu jeito de escrever conseguiu deixar a coisa mais real do que se fosse uma cena assistida pessoalmente.


    Parabéns!

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  4. uau, glorita, que delícia mais orgástica :p e afoto acasala mui bien :)

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  5. "Como fios desenhados do desejo entre suas pernas."
    Final poética, minha amiga. Muito bonito!
    Abração!

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  6. Êita, êita, êita!!

    Sensualidade está em alta, aqui no teu Blog.

    Amei.

    Beijim.

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  7. sempre gostei de ler os textos com um cariz erótico-romântico escrito por mulheres. A mulher encontra sempre novas dimensões do erotismo. Ler as mulheres é sempre uma fonta de aprendizagem. Às vezes me perguntam como é que eu consigo interpretar bem o universo feminino e eu acabo respondendo: «é pq leio as mulheres»
    ehehheh
    um beijo
    (scoog)

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  8. uau!!!
    fiquei sem fôlego, li de uma tacada só.
    um beijo, amiga querida do meu coração.

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  9. Que bacana esse texto.. caminho do fogo foi ótimo! Gloria, tu tem cada termo gostoso pra dar um significado às coisas... que me deixa sem palavras

    caminho do desejo que é aquoso como disse o Eduardo, mas tbm que é de fogo...
    supimpa isso!

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  10. Ola!!!!
    Belissimo Blog, parabéns vou adicionar seu Blog aos meus favoritos e sempre darei uma passadinha por áqui...

    Depois visite o meu tb

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  11. Visitei seu blog e gostei muito do que você escreveu. Já estou acompanhando!
    Por isso, gostaria de convidar você a participar do blog “Duelos Literários”, no qual as pessoas criam textos sobre temas de sua escolha e os textos são postados no próprio blog.
    Passe por lá e, se gostar da proposta, participe!
    http://duelosliterarios.blogspot.com/
    Um abraço e parabéns pelo seu blog!

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  12. Desejos, Glória. Você os desenha como ninguém.

    bjs

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  13. Água

    Paralelas pernas e os olhos dela. ela soube dar passagem. desta vez ela soube e seu texto sempre fluxo sabe mais.

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  14. "Uma mulher quase nunca sabe do que pode dar passagem."

    Isso é ótimo!!!!

    Ler teu texto só não é melhor que fazer.

    beijos
    Rossana

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  15. Gloria,

    Você tem um dom muito especial...
    Seus textos são profundos, belos e muito bons de ler...
    Logo percebe-se que escorregaram d'alma...

    Adoro vir por aqui...
    Adoro...

    Um beijo especial,

    Solange

    http://eucaliptosnajanela.blogspot.com

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  16. Esse trafego de olhares que vêm com desejo, o que se qr desejar qndo se olha, o que acontece numa banheira que faz o mundo acabar e é do toque que tudo surge e da vontade de pouca certeza. O que se é está num desses momentos, e pouca coisa vale mais que a magia de um bom momento.
    Verter o olhar para o momento que as velas devem ser apagadas é arriscar-se na desventura do fim do mágico. Logo: não qro.

    Declaro: o que escreves é lúdico, passa pela emoção do que deve ser pensado, da sutileza com que os sentidos são convidados a participar de nós.
    Selecionamos a carta e o jogo, que é o escrito e a vida, a pede. Tuas palavras enchem de poesia nossas memórias.

    Beijo linda linda

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  17. Esse banho mereceria uma eternidade...

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  18. Como sempre você trabalha as palavras como um escultor trabalha a argila.
    Com amor e paciência.
    Sim, escrever requer paciência. Escrever é reescrever .
    Texto erótico e sensual, com várias passagens que merecem destaque. Escolho uma cheia de sensualidade :
    "Jatos gentis de água lançavam-se em correnteza pelo dorso das costas dela."
    Lindo, como sempre !
    Glória,
    respondendo ao seu questionamento no meu blog, sou mulher e o Cafa existe, sim. A história é verdadeira. Inclusive, ele sabe do blog.

    Escritora ? Pode ser. Ainda amadora por não ter um livro com o meu nome.
    Embora tenha sido contratada como " ghost writer" para escrever um livro de mensagens bem "bobinho".
    Bom final de semana !
    Obrigada por sempre me acompanhar.
    Beijão !

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  19. "(...) quem sabe dos ventos é o passarinho"(...)

    Você é demais, Glória!

    Belo texto, como sempre! Te adoro!

    Um beijãooo.

    Pedro Antônio

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  20. Fazia um tempinho q não te visitava. Ao chegar um texto belo, maravilhoso.

    Bjos com ternura.

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  21. Olá Glória!!
    Esse entrelaçar de duas vontades, sugere a imaginação as mais variadas sensasões!!
    Feliz Dia das Mães, pois abraço a minha através de ti.
    Bjos!!
    Aloha
    Hod

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  22. Como sempre, Glória, você envolve com as palavras, cria mágicas atmosferas.
    Está cada vez melhor!
    Bj.

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  23. Lindo!
    Presença, sonho e lembrança juntos no mesmo corpo.

    Beijo!

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  24. Aff, Glória!!!

    Se faltasse luz neste momento,
    o calor dos corpos iluminariam,
    com seus fios energeticos,
    todo o ambiente,
    com sua chama rosa vermelho.
    Ai,ai.
    Bjks moça.

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  25. Que conto delicioso!
    Tudo na medida perfeita...

    Gostei.

    BeijOs

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Ventanias