terça-feira, 21 de setembro de 2010

Nau dos Delirantes - Parte Um




Era de seda, sentiu assim que tocou a carne. Um musgo esverdeado escorria pelo pescoço e pendia para o lado. Frio que nem a noite solitária. A mulher sequer atrevia-se a olhar para trás. Conserva-se ajoelhada na margem esquerda do rio e retinha por entre as mãos a âncora do barco partido. Madalena é uma alcunha que condena, já dizia a avó do mato. Havia mais de dois dias de desalento e nenhum sinal dos céus ou assobio alvissareiro dos ventos. A hora da partida do timoneiro, daquele que deixou sua vida à deriva, não cabia nas horas de espera. A mulher jurou para os santos que só sairia dali amarrada ao seu homem. Nem promessa era aquela ausência de razão.
Logo nas primeiras horas, gente de todos os lados, passava, entreolhava-se e zombava da mulher chorosa agarrada ao cais. Alguns acreditavam que era questão de minutos e a saudade se recolheria em busca de terra firme. Madalena nunca foi uma mulher de trocar sentimentos, muito menos de fazer fita. Assentou-se à beira do Amazonas e viu o navio gaiola seguir altaneiro na direção de Santa Maria de Ojeal. Era setembro dos ventos e das ondas orbitais. Antes de subir no barco, Orelano pousou os olhos nos seios fartos da mulher, nos olhos amarelados de cobra peçonhenta, na sua pele luminosa da cor de manga rosa e tremeu de cima abaixo. Antevia a dificuldade de seguir, tendo que abandonar a fêmea que o fez acordar. Mesmo um homem que parte pode ficar atado ao desejo.
Após o primeiro dia, uma multidão de curiosos foi cercando a mulher ancorada, por assim dizer. Quem a indagava se queria comer, beber um gole de água respondia – minha fome e minha sede têm nome. Mandaram chamar o padre até a beira do rio, mesmo não sendo o dia das confissões. Enquanto isso, um grupo de mulheres decidiu ‘puxar’ um pai-nosso, seguido de três ave-marias, rogando a Deus conformação. Tanto alvoroço e, renitente, a mulher apenas aguardava o milagre do retorno. Finalzinho da tarde do terceiro dia chegou o padre. A sede, a fome e o sol úmido dos trópicos já quase faziam a mulher delirar. Ele aproximou-se de Madalena, também em posição de circunflexão, e indagou o motivo de tanto pesar. A mulher sustentou seus grandes olhos fixos em direção a vista turva do padre e apenas interpelou – você já amou monsenhor?